Reinaldo de Mattos Corrêa*
No início da noite, mesas ocupam as calçadas da Avenida Weimar Gonçalves Torres. Conversas acontecem em fragmentos interrompidos por vibrações constantes de celulares. Casais alternam olhares entre pratos e notificações luminosas. Motocicletas atravessam o trânsito acelerado do centro enquanto vídeos curtos deslizam compulsivamente por dedos cansados. Em poucos metros, quase ninguém parece inteiramente presente. A cena poderia ocorrer em Nova York, Seul ou São Paulo. Mas acontece em , cidade que cresceu cercada pela velocidade do agronegócio, pela pressão econômica contemporânea e por uma transformação silenciosa que ultrapassa tecnologia: a erosão gradual da capacidade humana de contemplar.
O fenômeno não se resume ao uso excessivo de celulares. Existe algo mais profundo acontecendo dentro da experiência psicológica coletiva. A sociedade contemporânea começou a tratar o silêncio como defeito operacional. Esperar tornou-se desconfortável. Caminhar sem estímulo parece desperdício. Permanecer sozinho diante da própria consciência passou a produzir ansiedade. O tédio, experiência que durante séculos alimentou imaginação, introspecção e criatividade, converteu-se em inimigo cultural. Eliminá-lo virou obsessão invisível da vida moderna.
Em , essa mutação adquire contornos particularmente simbólicos. A cidade cresceu rapidamente nas últimas décadas, impulsionada pelo agronegócio, pela expansão universitária e pela digitalização intensa das relações econômicas. O resultado aparece no ritmo urbano: produtividade contínua, conectividade permanente e sensação difusa de urgência. O interior brasileiro, antes associado a certa lentidão existencial, aproxima-se da lógica nervosa das grandes metrópoles. O silêncio rareia não apenas nas ruas, mas dentro das pessoas.
Basta observar elevadores comerciais no centro da cidade. Dez segundos de espera já bastam para provocar reflexos automáticos: mãos buscam aparelhos antes mesmo da consciência perceber o gesto. Em restaurantes, famílias inteiras permanecem inclinadas sobre telas durante refeições quase mudas. Em filas de farmácia, adolescentes alternam aplicativos em velocidade hipnótica. Até nos semáforos motoristas deslizam dedos sobre notificações como se alguns segundos vazios fossem emocionalmente intoleráveis. O cotidiano douradense tornou-se laboratório vivo da hiperestimulação contemporânea.
Existe uma consequência cognitiva pouco debatida fora dos grandes centros acadêmicos. O excesso de estímulos fragmenta atenção humana de maneira profunda. Leitura longa exige esforço crescente. Conversas demoradas parecem cansativas. Reflexões complexas perdem espaço diante da avalanche permanente de informações rápidas, vídeos curtos e respostas instantâneas. O cérebro acostumado a microdoses contínuas de novidade passa a rejeitar lentidão. E sem lentidão desaparece algo essencial: profundidade.
A questão ultrapassa comportamento individual. Plataformas digitais descobriram que atenção humana representa recurso econômico altamente lucrativo. Quanto maior o tempo diante das telas, maior o fluxo financeiro alimentado por publicidade, consumo e coleta de dados comportamentais. Nesse modelo, silêncio não possui valor econômico. Contemplação não gera cliques. Espera não produz engajamento. O resultado é uma disputa invisível pelo território mais íntimo da experiência humana: concentração, imaginação e percepção.
O impacto emocional dessa lógica aparece de forma crescente nos consultórios psicológicos da região. Ansiedade difusa, dificuldade de concentração, insônia alimentada por excesso informacional e sensação persistente de esgotamento tornaram-se sintomas recorrentes. Muitas pessoas acordam já mergulhadas em notificações. Dormem acompanhadas pelo brilho frio das telas. Entre uma rotina acelerada de trabalho e consumo digital contínuo, resta pouco espaço para silêncio genuíno. A mente permanece ocupada, mas raramente repousa.
Há algo particularmente perturbador nessa transformação porque o vazio possui função humana fundamental. Foi no tédio que nasceram inúmeras formas de arte, pensamento filosófico e descoberta científica. Grandes ideias frequentemente emergem durante caminhadas silenciosas, janelas observadas sem pressa, tardes aparentemente improdutivas. O cérebro necessita de intervalos para organizar emoções, construir memória e formular pensamento complexo. Sem pausas, a consciência opera em estado contínuo de reação, incapaz de aprofundamento verdadeiro.
Talvez o sinal mais evidente dessa mudança esteja nas novas gerações. Crianças demonstram dificuldade crescente para suportar momentos sem entretenimento imediato. Pais oferecem telas durante refeições, viagens curtas, salas de espera e até pequenos deslocamentos urbanos. Aos poucos, desaparece a experiência da espera silenciosa — experiência que durante décadas moldou imaginação infantil. Sem espaço vazio, fantasia perde território. Sem monotonia, criatividade enfraquece. O cérebro acostumado a estímulo permanente desaprende a inventar.
Existe ainda uma dimensão política raramente percebida no debate público regional. Sociedades hiperdistraídas tornam-se emocionalmente mais vulneráveis. Pensamento crítico exige atenção sustentada, leitura cuidadosa e capacidade de reflexão prolongada. A lógica algorítmica opera na direção oposta: estímulos rápidos, indignação instantânea e reações impulsivas. Quando a atenção coletiva se fragmenta continuamente, desaparece também parte da capacidade democrática de compreender problemas complexos.
Em meio ao crescimento econômico, ao trânsito intenso e à digitalização acelerada da vida cotidiana, talvez esteja vivendo uma transformação invisível, porém decisiva. A cidade tornou-se mais rápida, mais conectada e mais produtiva. Mas existe uma pergunta incômoda pairando sobre apartamentos iluminados por telas durante madrugadas insones: o que desaparece dentro do ser humano quando não resta mais espaço para silêncio?
Talvez a perda não seja apenas psicológica. Talvez desapareça lentamente a capacidade de observar chuva sem ansiedade, ouvir outra pessoa sem impulso de interrupção digital, caminhar sem necessidade de estímulo externo, permanecer sozinho sem medo da própria interioridade. Talvez desapareça até mesmo certa forma de humanidade construída precisamente nos intervalos vazios que a civilização contemporânea tenta eliminar.
No fim da noite, a cidade desacelera por fora, mas continua desperta por dentro das telas. Luzes azuis iluminam rostos cansados em quartos silenciosos. Vídeos sucedem vídeos; mensagens sucedem notificações; distrações sucedem pensamentos. E talvez resida aí a contradição mais brutal do presente: numa época capaz de conectar milhões de pessoas instantaneamente, cresce silenciosamente a incapacidade coletiva de permanecer alguns minutos em verdadeira companhia da própria consciência.
* Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.