Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption) é frequentemente celebrado como um hino liberal à esperança individual. Contudo, visto pelos meus olhos — os de Karl Marx — ele revela algo mais profundo: a prisão não é apenas um edifício de pedra, mas a metáfora concentrada da sociedade burguesa.
Shawshank é a imagem do Estado enquanto aparelho de coerção a serviço de interesses privados. O diretor Norton, que cita a Bíblia enquanto lava dinheiro com o trabalho dos presos, encarna a hipocrisia estrutural da classe dominante: moralidade na superfície, exploração na base. O trabalho prisional não é redenção; é extração de valor sob vigilância armada. Aqui, o cárcere funciona como microcosmo do capitalismo: disciplina, hierarquia, alienação.
Andy Dufresne sobrevive não apenas pela esperança abstrata, mas porque domina os códigos do capital — contabilidade, finanças, circulação de dinheiro. Sua relativa autonomia decorre de seu saber técnico, isto é, de sua posição diferenciada na divisão social do trabalho. Ele não destrói o sistema; ele o utiliza, move-se por suas fissuras e, ao final, retira-se para fora dele. Sua libertação é individual, não coletiva.
Red, por outro lado, representa o proletário institucionalizado: alguém moldado pelas estruturas a ponto de temer a liberdade. A famosa “institucionalização” é aquilo que chamei de alienação — quando as condições sociais produzidas pelos homens se voltam contra eles como forças estranhas e naturais.
O filme comove porque sugere que a dignidade humana resiste. Mas permanece nos limites da ideologia liberal: a salvação vem da perseverança pessoal, não da transformação das estruturas que produzem a prisão — literal ou social. O espectador sai emocionado, mas não organizado.
Recomenda-se para aprofundar a crítica a leitura de Vigiar e Punir, de Michel Foucault (um atento analista das instituições disciplinares), e de A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, de Engels, onde se vê que a sociedade “livre” pode ser tão carcerária quanto Shawshank.
Como se escreveu em A Ideologia Alemã:
“As ideias dominantes de uma época sempre foram apenas as ideias da classe dominante.”
E enquanto não se romper essa dominação material, continuaremos a chamar de “liberdade” aquilo que é apenas a escolha entre diferentes formas de cárcere.