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Política migratória do Governo Trump, o aliado político do Bolsonaro

Publicada em: 07/02/2026 11:39 -

 

A política migratória do governo Trump não foi apenas um conjunto de medidas administrativas voltadas ao controle de fronteiras. Ela operou como um laboratório de poder, no qual o Estado testou até onde poderia ir na redefinição de quem merece existir politicamente, quem pode circular, quem pode falar e quem pode sofrer sem que isso provoque escândalo duradouro. Seu caráter nocivo à humanidade não reside apenas no sofrimento direto que produziu, mas na normalização global de uma nova gramática da exclusão.

Sob o discurso da soberania e da segurança nacional, o trumpismo transformou o migrante em uma figura ontológica de ameaça. Não alguém que faz algo perigoso, mas alguém que é perigoso por definição. Essa mutação é crucial. Quando o perigo deixa de ser um ato e passa a ser uma identidade, o direito deixa de funcionar como limite do poder e passa a funcionar como instrumento de classificação biopolítica: quem pode viver, quem pode ser deixado morrer, quem pode ser detido indefinidamente, quem pode ser separado de seus filhos em nome de um bem abstrato chamado “nação”.

A política migratória de Trump foi nociva porque reabilitou a ideia de que a crueldade pode ser uma ferramenta legítima de governo. A separação sistemática de crianças de seus pais não foi um “excesso” nem um “erro operacional”; foi uma tecnologia de dissuasão baseada no sofrimento exemplar. O sofrimento não como efeito colateral, mas como mensagem. O Estado não dizia apenas “não entrem”, mas “entrem e sofrerão”. Quando o sofrimento se torna política pública, algo fundamental se rompe na ideia moderna de humanidade compartilhada.

Mas o dano não se limitou às fronteiras dos Estados Unidos. O trumpismo migratório funcionou como precedente discursivo global. Ele ensinou outros governos que era possível suspender o vocabulário dos direitos humanos sem pagar alto custo político. Bastava substituir a linguagem da dignidade pela linguagem da ameaça, da invasão, da contaminação cultural. Assim, políticas antes consideradas moralmente inaceitáveis passaram a ser reapresentadas como realistas, pragmáticas, corajosas. O mundo não ficou apenas mais fechado; ficou mais cínico.

Há, contudo, um aspecto ainda mais profundo e talvez mais perigoso: a política migratória de Trump corroeu a própria ideia de universalismo humano. Ao afirmar, explicitamente ou não, que certos passaportes, certas línguas, certas origens tornam uma vida menos digna de proteção, o Estado norte-americano — historicamente apresentado como guardião de valores universais — contribuiu para a fragmentação ética do mundo. Se a humanidade é condicional, então ela deixa de ser humanidade e passa a ser privilégio.

Do ponto de vista econômico, o discurso de proteção revelou-se igualmente destrutivo. Ao criminalizar fluxos migratórios, o governo Trump reforçou mercados clandestinos, redes de exploração e regimes de trabalho ainda mais precários. A migração não desaparece quando é reprimida; ela apenas se torna mais violenta, mais cara e mais desumana. O resultado foi um aumento da vulnerabilidade global, não sua redução. A política que se apresentava como defesa do trabalhador produziu mais trabalhadores descartáveis.

Talvez o aspecto mais nocivo tenha sido simbólico. A política migratória trumpista ensinou milhões de pessoas a olhar para o outro não como semelhante, mas como risco estatístico. O migrante deixou de ser uma história e passou a ser um número; deixou de ser um sujeito e passou a ser um problema. Essa desumanização cotidiana não fica restrita às fronteiras: ela infiltra escolas, hospitais, bairros, redes sociais. Onde ela se instala, a empatia se retrai e a violência se torna banal.

O que o governo Trump fez, em última instância, foi redefinir o que significa governar. Governar deixou de ser administrar a vida em comum e passou a ser selecionar vidas aceitáveis. Essa lógica, uma vez legitimada, não conhece limites estáveis. Hoje o alvo é o migrante; amanhã, qualquer outro grupo que possa ser narrado como excesso, custo ou ameaça.

A política migratória de Trump foi nociva à humanidade porque não atacou apenas pessoas em movimento. Ela atacou a própria ideia de que a Terra é habitada por seres humanos antes de ser dividida em territórios. Ela ensinou que o sofrimento pode ser estratégia, que a exclusão pode ser virtude e que a fronteira pode valer mais do que a vida.

E quando um governo poderoso ensina isso ao mundo, o dano não é conjuntural. É civilizacional.

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