Tocando Agora: ...

Rota Bioceânica (por Tácito Loureiro)

Publicada em: 09/07/2025 10:26 - Literatura

 

CAMINHO QUE NOS TECE 

 

Não é só asfalto o que beija o chão —  

artéria viva da Criação.  

Do Atlântico ao Pacífico, pulsa o invisível:  

fio secreto, teia sem costura.

 

Cada curva? Um córtex que se acende,  

sinapse aberta onde o mundo aprende.  

E o vento que cruza a janela do tempo  

sussurra: “Não sejas espelho — sê movimento.”

 

O deserto, agora estrada,  

foi mar em outra alvorada.  

A areia — que guarda a ausência em cor —  

é memória adormecida que desperta em ardor.

 

Montanhas azuis, sentinelas em reza,  

erguem o silêncio onde a dúvida pesa.  

Não são rochas — são pálpebras da terra, 

velando o mistério que o medo enterra.

 

Pisa fundo, viajante: és o traço e o mapa,  

a dobra do tempo, a ponte que escapa.  

O que vês — planícies, rodas, faróis —  

são 

sulcos da alma, constelações à solta.

 

Truckers, crianças, velhos em romaria,  

forjam a estrada com a alquimia.

Cada passo? Mar que se inventa em sal,  

navegando a coragem em curso eternal.

 

Não és passageiro — és verbo, és brasa,

movimento que sonha e se abraça.  

E o sal do oceano que toca teus pés  

é lágrima antiga a unir dois mundos de vez.

 

Ao cruzar a espinha dos Andes em flor,  

sentirás o sangue mudar de cor.  

Cada túnel: útero que gera o claro.

Cada ponte:

alvorada de um tempo mais raro.

 

Ergue o olhar: o condor risca no ar  

o alfabeto do vento a desvendar. 

E se ouvires o céu, ouvirás:  

“Tu és a paisagem que nunca parou de se fazer.”

 

Neste corredor de carne e chão,  

tece-se o mapa da transmutação.  

Bioceânico, sim — mas mais que concreto:  

és ideia em movimento, gesto perfeito.

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