CAMINHO QUE NOS TECE
Não é só asfalto o que beija o chão —
artéria viva da Criação.
Do Atlântico ao Pacífico, pulsa o invisível:
fio secreto, teia sem costura.
Cada curva? Um córtex que se acende,
sinapse aberta onde o mundo aprende.
E o vento que cruza a janela do tempo
sussurra: “Não sejas espelho — sê movimento.”
O deserto, agora estrada,
foi mar em outra alvorada.
A areia — que guarda a ausência em cor —
é memória adormecida que desperta em ardor.
Montanhas azuis, sentinelas em reza,
erguem o silêncio onde a dúvida pesa.
Não são rochas — são pálpebras da terra,
velando o mistério que o medo enterra.
Pisa fundo, viajante: és o traço e o mapa,
a dobra do tempo, a ponte que escapa.
O que vês — planícies, rodas, faróis —
são
sulcos da alma, constelações à solta.
Truckers, crianças, velhos em romaria,
forjam a estrada com a alquimia.
Cada passo? Mar que se inventa em sal,
navegando a coragem em curso eternal.
Não és passageiro — és verbo, és brasa,
movimento que sonha e se abraça.
E o sal do oceano que toca teus pés
é lágrima antiga a unir dois mundos de vez.
Ao cruzar a espinha dos Andes em flor,
sentirás o sangue mudar de cor.
Cada túnel: útero que gera o claro.
Cada ponte:
alvorada de um tempo mais raro.
Ergue o olhar: o condor risca no ar
o alfabeto do vento a desvendar.
E se ouvires o céu, ouvirás:
“Tu és a paisagem que nunca parou de se fazer.”
Neste corredor de carne e chão,
tece-se o mapa da transmutação.
Bioceânico, sim — mas mais que concreto:
és ideia em movimento, gesto perfeito.